Pesquisa testa tecnologia com fibras naturais para filtragem de resíduos industriais

21/08/2026 - 16:41  •  Atualizado 21/08/2026 17:33
Texto: Sueli de Freitas     Edição: Thereza Marinho
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Fruto da flor-de-seda, de onde é retirada a fibra que compõe o filtro

Uma nova tecnologia para filtragem de óleos minerais emulsionados em água está sendo testada por uma equipe do Programa de Pós-Graduação em Energia (PPGEN) da Ufes, no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), no campus de São Mateus. A base do experimento é uma fibra vegetal encontrada no fruto da planta Calotropis procera, popularmente conhecida como flor-de-seda. Os resultados já alcançados até o momento apontam um menor consumo de energia no tratamento dos resíduos gerados em processos industriais, com manutenção ou até aumento da eficiência na remoção do óleo antes do descarte da água no meio ambiente.

Os estudos com a fibra da Calotropis procera tiveram início no PPGEN/Ufes em 2020. Duas dissertações de mestrado (dos estudantes Lucas Coutinho e Odilon de Oliveira)  analisaram essa alternativa sustentável para tratar efluentes, que são os resíduos gerados por atividades industriais e são despejados no meio ambiente. Agora, Oliveira desenvolve sua tese de doutorado buscando o aperfeiçoamento do processo de filtragem, sob a orientação do professor Eduardo Muniz, coordenador do Laboratório de Medidas de Propriedades Físicas de Materiais do PPGEN/Ufes.

Essas pesquisas, e também estudos de iniciação científica desenvolvidos por estudantes de graduação, fazem parte do projeto Fibras Naturais para Remoção de Óleo em Água, coordenado por Muniz em parceria com o professor Nazareno Braga, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O projeto visa à construção e à avaliação de um sistema filtrante para separação de óleo emulsificado em água utilizando fibras de Ceiba pentandra (sumaúma), Calotropis procera (flor-de-seda) e Typha domingensis (taboa).

Veja esta e outras matérias sobre pesquisas realizadas pela Ufes no site da Revista Universidade.

Como funciona

Fibra da Calotropis procera
Fibra da Calotropis procera

Um sistema de filtração de óleo mineral com uso de componentes que apresentam um desempenho melhor e menor custo atende à necessidade de tratamento de efluentes produzidos em indústrias, oficinas mecânicas e postos de combustíveis. De acordo com os pesquisadores, os resíduos decorrentes da lubrificação de máquinas, carros e equipamentos apresentam, em geral, baixa biodegradabilidade (demoram muito tempo para se decompor de forma natural), levando à formação de uma camada superficial de óleo que reduz a oxigenação da água de rios e lagos. 

Essa camada de óleo é usualmente removida das caixas de passagem de esgoto das empresas por meio de métodos físico-químicos de separação de misturas heterogêneas. No entanto, o óleo emulsificado na água não é retido de forma eficiente por esse processo, permanecendo disperso no efluente. Por essa razão, em determinadas situações, emprega-se um sistema de filtração específico para a remoção do óleo.

A fibra da Calotropis procera é oca e tem formato tubular, sendo a filtragem realizada com quatro camadas da fibra. Segundo o professor Muniz, “um grama de fibra retém 80 gramas de óleo”. Ele afirma que os pesquisadores “estão testando outras plantas e poderemos ter, no futuro, esse filtro produzido em escala industrial”.

Além da Calotropis procera, os testes serão feitos com fibras da sumaúma, que também possui comprovada eficiência na remoção de óleo em água, e com a fibra da taboa, muito comum no Espírito Santo, cuja aplicação para filtragem tem menos evidências até o momento. Segundo Muniz, no projeto será feita a caracterização detalhada das fibras, “procurando associar sua estrutura com a capacidade de absorção de óleo”.  

A Calotropis procera é uma planta nativa do Norte da África e do Sudoeste da Ásia (Oriente Médio), já tendo se difundido por várias regiões tropicais do mundo. No Brasil, está presente na Região Nordeste e também no norte do Espírito Santo. É conhecida por ter uma seiva tóxica. A fibra que está sendo pesquisada está na parte interna do fruto, e assemelha-se a um algodão.

Imagens: acervo dos pesquisadores

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