A série especial Ufes por Elas: iniciativas que transformam vidas de mulheres capixabas apresenta uma pesquisa que nasce de uma experiência pessoal e se transforma em reflexão institucional. Ainda na infância, ao empatar em primeiro lugar em uma Olimpíada de Matemática, Lorrane Vimercati foi orientada a desistir da etapa seguinte, porque, pelo fato de o outro aluno ser menino, “seria mais fácil para ele avançar”. A frase nunca saiu da memória e, anos depois, tornou-se o ponto de partida para uma investigação acadêmica.
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Servidora do Centro de Ciências Exatas, Naturais e da Saúde (CCENS/Ufes), campus de Alegre, Vimercati é graduada em Geologia e Matemática, e autora da dissertação de mestrado Assimetria de gênero na docência: trajetórias de professoras de Centros de Ensino da Universidade Federal do Espírito Santo em Alegre. O estudo foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ensino, Educação Básica e Formação de Professores e analisa os desafios enfrentados por mulheres que lecionam em áreas tradicionalmente masculinas, como as Ciências Exatas, Naturais e Agrárias, buscando compreender barreiras e estratégias de resistência presentes em suas trajetórias.
A pesquisa teve início em 2024 com um levantamento de dados sobre disparidades de gênero na Ufes. O mapeamento revelou que, embora as mulheres representem 47% do corpo docente total da Universidade, a participação feminina é maior em áreas de "cuidado", como Educação (66%) e Saúde (62%). Já no Centro de Ciências Agrárias e Engenharias (CCAE), apenas 43% do corpo docente é formado por mulheres, enquanto no CCENS o percentual é de 48%, chegando a 22% no Departamento de Computação. Para a pesquisadora, porém, os números eram apenas o ponto de partida: era preciso compreender o que existia por trás das estatísticas.
Hierarquia invisível
Foi nesse contexto que ela realizou entrevistas com professoras da instituição, que revelaram situações de exclusão simbólica, machismo velado e solidão profissional. “As falas revelam uma hierarquia invisível na distribuição de disciplinas: enquanto as matérias ‘técnicas’ e ‘nobres’ permanecem sob domínio masculino por uma lógica de prestígio, às mulheres são frequentemente atribuídas as disciplinas introdutórias, que exigem maior mediação pedagógica, mas recebem menor valorização técnica”, avalia Vimercati. Além disso, a sobrecarga associada à maternidade surgiu como um ponto central de desigualdade.
Para a pesquisadora, o principal impacto do estudo está na ruptura do silêncio. Ao evidenciar que experiências como sentimento de culpa, conflitos entre maternidade e carreira, e deslegitimação profissional não são falhas individuais, mas reflexos de uma estrutura social ainda marcada por assimetrias de gênero, ela busca fortalecer o bem-estar e a autoestima das mulheres: “Dar nome às desigualdades é o primeiro passo para transformá-las. Quando uma mulher narra sua trajetória, ela não fala só de si, ela reposiciona todas as outras no espaço científico. Minha dissertação é, ao mesmo tempo, denúncia e semente. Se uma menina passa a acreditar que aquele espaço também é dela, então essa semente já começou a germinar”.
Vimercati pretende aprofundar a investigação no doutorado e ampliar o estudo para outras instituições. A dissertação será disponibilizada no Repositório Institucional da Ufes em breve e as pessoas interessadas em conhecer mais sobre a pesquisa podem entrar em contato com a autora pelo e-mail lorrane.v.rodrigues@ufes.br.
Fotos: Freepik e arquivo pessoal
Universidade Federal do Espírito Santo