Ufes participa de estudo sobre nova linhagem do coronavírus originada no Amazonas

Em publicação realizada nesta segunda-feira, 11, no blog Virological, pesquisadores de diversas instituições de pesquisas brasileiras, dentre eles o professor Edson Delatorre, do Departamento de Biologia do Centro de Ciências Exatas, Naturais e da Saúde (CCENS/Ufes), divulgaram resultados de um sequenciamento genético revelando que é originária do Amazonas a nova linhagem do SARS-CoV-2 B.1.1.28, identificada em viajantes que estiveram na região metropolitana de Manaus e apresentaram COVID-19 ao chegarem ao Japão.

Batizada de SARS-CoV-2 P1, a nova linhagem foi detectada em um processo comparativo de genomas de pacientes de Manaus com os dos viajantes do Japão. “Nós já estávamos fazendo um trabalho em colaboração com a Fiocruz para caracterizar a diversidade do coronavírus no Estado do Amazonas, ajudando nas análises evolutivas do vírus, quando ficamos sabendo da variante detectada no Japão em viajantes que estiveram em Manaus e retornaram àquele país. Então, comparamos as amostras do Japão com amostras de Manaus, utilizando 148 genomas de pessoas doentes e percebemos que havia ao menos duas cadeias de transmissão local”, explica o professor Delatorre.

Segundo ele, por meio da análise filogenética, uma espécie de árvore genealógica do contágio, foi possível identificar a cadeia de transmissão chamada de Amazonas 2, que “deu origem aos eventos que levaram à emergência dessa variante detectada no Japão”, diz o professor. “A análise filogenética estabelece o fluxo direcional da transmissão, por isso é possível afirmar com certeza que o contágio foi de Manaus para o Japão”, acrescenta.

Para Delatorre, ainda não é possível declarar que essa nova variante do novo coronavírus possui maior transmissibilidade por conta das mutações detectadas no Japão, mas estão sendo feitas análises de amostras coletadas em dezembro e janeiro para chegar a alguma conclusão. “As variantes do Japão possuem mutações associadas a maior transmissibilidade. Até as amostras de novembro, não conseguimos detectar isso. Aparentemente, [essas mutações] emergiram rapidamente e a transmissão está rápida, provavelmente dominando a epidemia no Amazonas neste momento”, pressupõe o pesquisador diante do aumento expressivo do número de casos no estado.

Mutações

As mutações dizem respeito a alterações químicas na composição das proteínas. Representados por letras, os aminoácidos que compõem as proteínas são substituídos por outros, daí as formulações K417N, E484K e N501Y. As duas primeiras mutações detectadas (K417N e E484K) são referentes a impactos na resposta imune do indivíduo, ou seja, favorecem que o vírus se replique e o sistema imunológico não o reconheça ou o combata. Além disso, a E484K e também a N501Y favorecem a ligação do vírus ao receptor de entrada da célula.

“O que já se viu é que essas mutações mudam a força com que o vírus se liga à célula e também reduzem a imunidade do hospedeiro frente ao vírus, ou seja, favorecerem que o vírus entre na célula e se replique no corpo do indivíduo. As linhagens [do coronavírus] têm combinações diferentes de mutações, mas apresentam essas características iguais. As mesmas mutações da África do Sul estão aparecendo aqui, num processo de convergência evolutiva. Isso significa que o vírus está seguindo por diferentes caminhos para um mesmo lugar”, afirma o pesquisador.

Transmissibilidade

As variantes do coronavírus relacionadas à transmissão em observação hoje, em nível mundial, especialmente na Inglaterra e na África do Sul, mostram as mutações sofridas pelo vírus para que melhor se adaptasse ao corpo humano. As variações encontradas em Manaus assemelham-se às encontradas também na África do Sul. Além da que se instalou aqui desde o início da pandemia (Sars-CoV-2 B.1.1.28) e da nova linhagem descoberta em Manaus (Sars-CoV-2 P1), a terceira é a relatada por pesquisadores no Rio de Janeiro (Sars-CoV-2 P2) no final do ano passado.

“Os nomes P1 e P2 saíram nesta madrugada no Pangolin", relatou o professor Delatorre nesta terça-feira, 12, referindo-se ao sistema de registro dos achados científicos sobre coronavírus. Ele explica que a P1 e a P2 são ramificações da primeira linhagem que circulou e se estabeleceu no Brasil. “São dois descendentes diferentes e simultâneos com potencial de maior transmissibilidade”.

Sobre esse potencial das novas cepas, o professor declara que é preocupante, pois é o que pode colapsar o sistema de saúde. “Uma cepa com maior transmissibilidade é pior que uma cepa com maior letalidade, porque quanto mais transmite, mais pessoas ela mata. Então o sofrimento causado ao sistema de saúde é maior”, afirma.

 

Texto: Sueli de Freitas
Imagem: Peter Ilicciev/Fiocruz Imagens
Edição: Thereza Marinho

 

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