Pesquisa alerta para avanço do câncer de início precoce na América Latina e Caribe

24/09/2026 - 11:52  •  Atualizado 24/09/2026 14:32
Texto: Sueli de Freitas     Edição: Thereza Marinho
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Imagem de uma jovem deitada em uma maca sendo atendida por um médico

Uma pesquisa liderada por membros do Grupo de Estudos e Pesquisas em Oncologia (Geponc) da Ufes, em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (Opas/OMS) e a Universidade de Iowa, dos Estados Unidos, alerta para o aumento dos casos de câncer diagnosticados antes dos 50 anos na América Latina e Caribe.

Os pesquisadores apontam que o câncer de início precoce deve ser reconhecido como um desafio emergente de saúde pública para a região. Segundo o coordenador do Geponc/Ufes, professor Luís Carlos Lopes-Júnior, “o fortalecimento dos registros populacionais, a harmonização da coleta de dados e a construção de redes colaborativas regionais são medidas urgentes para que os países possam monitorar e responder adequadamente ao fenômeno”, acrescenta ele.

No estudo, foram analisados 4.426 registros científicos e, após um rigoroso processo de seleção, foram escolhidas 28 publicações provenientes de 11 dos 33 países da América Latina e Caribe. O Brasil respondeu por quase metade das publicações identificadas. De acordo com Lopes-Júnior, “os resultados apontam tendências crescentes para diferentes tipos de câncer diagnosticados antes dos 50 anos, especialmente câncer de mama, câncer colorretal, câncer de tireoide e adenocarcinoma do colo do útero, embora os padrões variem entre países e populações”.

Como exemplo, ele cita que, no Brasil, um dos estudos incluídos mostrou que, entre mulheres de 20 a 39 anos no estado de Goiás, a incidência de câncer de mama passou de 2,89 para 6,37 casos por 100 mil mulheres/ano, entre 1988 e 2003. Isso corresponde a um crescimento percentual médio anual de 5,22%.

Em relação ao câncer colorretal, “foram observadas tendências de aumento no Brasil e no Uruguai, enquanto dados provenientes do Peru indicaram redução da incidência”, mostrou.

No que diz respeito ao câncer do colo do útero, os pesquisadores também identificaram comportamentos distintos de acordo com o subtipo histológico, ou seja, conforme o tecido/célula no qual o tumor se originou. O professor afirmou que "enquanto houve redução do carcinoma de células escamosas [células que revestem a superfície de órgãos], o adenocarcinoma [células glandulares] apresentou aumento em determinados contextos”.

A partir das evidências encontradas, os autores propõem três grandes prioridades para a região: fortalecer e padronizar os registros populacionais de câncer; ampliar estudos multicêntricos e redes regionais de colaboração; e avançar na integração de dados epidemiológicos, clínicos, genômicos e moleculares.

Publicação

O estudo foi publicado no eClinicalMedicine, periódico da revista científica The Lancet Discovery Science, com o título Câncer de início precoce na América Latina: tendências de incidência, lacunas de evidências e implicações clínicas.

No artigo, os autores ressaltam que fatores como obesidade, consumo de álcool, tabagismo, padrões alimentares ocidentalizados e desigualdades socioeconômicas foram relatados em alguns dos estudos incluídos. Entretanto, eles destacam que esses resultados devem ser interpretados como exploratórios, uma vez que a revisão não foi desenhada especificamente para resumir as causas da doença. 

Desafios

Para os pesquisadores, “um dos resultados mais relevantes do trabalho não está apenas nas tendências de crescimento identificadas, mas também naquilo que ainda não se conhece”. Dos 33 países da América Latina e do Caribe, apenas cerca de um terço apresentou estudos elegíveis sobre câncer de início precoce. “Além disso, a literatura disponível é predominantemente formada por estudos observacionais e descritivos, com diferenças importantes nas fontes de dados e nos grupos etários avaliados”, informou Lopes-Júnior.

Ele acrescenta que a ausência de sistemas robustos e comparáveis de vigilância dificulta dimensionar adequadamente o fenômeno na região. “Não podemos planejar estratégias efetivas de prevenção e detecção precoce sem sistemas de vigilância capazes de mostrar onde, entre quem e com que velocidade esses cânceres estão aumentando”. Para Lopes-Júnior, é necessário avançar para uma agenda científica capaz de compreender os determinantes do aumento da incidência de câncer precoce.

Leia a matéria completa no site da Revista Universidade.

Imagem: Magnific

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