Estudo aponta células modificadas capazes de combater infecções e tumores

31/12/2020 - 10:23  •  Atualizado 05/01/2021 19:29
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Um estudo realizado por pesquisadores da Ufes descobriu que um tipo de células modificadas pelo envelhecimento ou por infecções (ou seja, senescentes) adquire a nova função de contribuir para eliminar células infectadas ou tumorais. O artigo sobre o tema, realizado pelos núcleos de Doenças Infecciosas (NDI) e de Biotecnologia da Ufes, foi publicado na revista Nature Immunology, a mais importante do mundo na área.

Veja esta e outras matérias sobre pesquisas realizadas pela Ufes no site da Revista Universidade: revistauniversidade.ufes.br

As células estudadas são do tipo T CD8+, cuja principal função é a produção de citocinas (que agem como mediadores inflamatórios). Sua capacidade citotóxica é responsável pela destruição e pela eliminação de células infectadas e tumorais. Quando as células T CD8+ se tornam senescentes, sofrem modificações, conforme explica a pesquisadora assistente do NDI e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas Luciana Covre. “Essas células são caracterizadas por apresentarem dano no DNA, pela perda da capacidade de replicação e redução na atividade do receptor TCR, funções muito importantes da resposta imune, que ajudam a garantir a especificidade da resposta e o aumento do número de células necessário para enfrentar uma infecção, por exemplo”, detalha.

A pesquisa aponta que, apesar de não ter a mesma resposta imune anterior, essas células T CD8+ senescentes adquirem uma nova forma de se manterem ativas na resposta imune, exercendo sua capacidade citotóxica para eliminar células infectadas e tumorais de forma mais rápida, assemelhando-se a células de imunidade inata. 

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Segundo o estudo, essa semelhança é alcançada uma vez que as células T CD8+ senescentes sofrem alteração fenotípica e adquirem receptores de superfície (NKG2D) e moléculas de sinalização intracelular (DAP-12). Além disso, essas células têm um aumento de proteínas em seu interior conhecidas como sestrinas (Sestrin2), que detectam estímulos que podem levar a um estresse da célula. 

A importância da sestrina foi verificada por meio da inibição de seu funcionamento, tanto in vitro quanto in vivo, com camundongos. No estudo, foi possível verificar que, quando a proteína Sestrin2 não estava ativa, a célula T CD8+ senescente perdia sua função de célula inata. 

“Acreditamos que essas alterações que ocorrem com as células T CD8+ senescentes façam parte de uma adaptação do sistema imunológico na tentativa de manter respostas imunes eficazes. Visto que essas células se acumulam durante o envelhecimento e/ou infecções, e que são células funcionais, elas podem trazer benefícios para eliminar processos infecciosos e células tumorais. No entanto, é sempre importante ressaltar que, em excesso, essas células podem elevar o risco de doenças autoimunes e inflamatórias”, avalia a pesquisadora. 

O estudo realizado abre novos caminhos de pesquisa, segundo Luciana Covre. Dentre as possibilidades, estão a análise do papel dessas células em diferentes doenças e o controle da função dessas células -para terapias ou para a regulação de sua função, se estiverem causando danos ao corpo.

 

Texto: Mikaella Mozer (bolsista de projeto de Comunicação) e Lidia Neves
Foto: Konstantin Kolosov/ Pixabay