Ufes lança Banco de Fontes Negras com especialistas de todas as áreas do conhecimento

13/05/2026 - 17:19  •  Atualizado 13/05/2026 18:52
Texto: Adriana Damasceno     Edição: Thereza Marinho
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Desenho de mulher negra com fundo amarelo, escrito "Banco de Fontes Negras"

Oitenta e uma pesquisadoras e pesquisadores negros da Ufes já integram o Banco de Fontes Negras, iniciativa institucional que busca ampliar e diversificar a presença desses especialistas na mídia, fortalecer a interlocução entre Universidade, imprensa e sociedade, e ampliar a representatividade de profissionais pretos e pardos na circulação pública do conhecimento científico no Brasil. A plataforma está disponível para consulta pública, por meio deste link, e pode ser acessada por jornalistas, estudantes e demais pessoas interessadas. 

O Banco de Fontes Negras é um projeto desenvolvido pela Secretaria de Comunicação (Secom/Ufes), com apoio da Superintendência de Tecnologia da Informação (STI/Ufes). O lançamento ocorre neste 13 de maio, conectando a ação a uma data historicamente associada à assinatura da Lei Áurea, em 1888, atualmente ressignificada como momento de reflexão sobre os limites da abolição, marcada pelo fim legal da escravidão sem a plena inclusão social da população negra.

A pluralidade científica é um dos destaques do levantamento: o banco abrange todas as áreas de conhecimento ofertadas pela Ufes, incluindo saúde, educação, engenharia, direito, tecnologia, agricultura, sociologia, comunicação e economia. A distribuição por centros de ensino evidencia maior presença de pesquisadoras e pesquisadores ligados ao Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN), com 22 registros de vínculo (27,2%), seguido pelo Centro de Ciências da Saúde (CCS), com 11 (13,6%), e pelo Centro de Educação (CE), com 9 (11,1%). Juntos, esses três centros concentram 51,9% de todo o banco.

A ferramenta inclui ainda especialistas que atuam na Superintendência de Educação a Distância (Sead/Ufes) e na Administração Superior, demonstrando que a produção intelectual negra está presente em diferentes níveis da estrutura acadêmica e administrativa da Universidade.

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Foto do professor Murilo Costa em sua mesa de trabalho
Professor Murilo Costa, do Departamento de Ciências da Saúde

Como parte das pessoas cadastradas acumula mais de um vínculo institucional, as categorias não são excludentes. Assim, entre os participantes, 28 são docentes (34,6%), 12 são técnicas e técnicos-administrativos em educação - TAEs (14,8%) e 45 são estudantes de pós-graduação (55,6%), indicando um processo de renovação geracional da presença negra na academia. 
Já no recorte de gênero, o banco reúne 42 homens (51,9%) e 39 mulheres (48,1%). Quanto à autodeclaração racial, 52 participantes (64,2%) se identificam como pessoas pretas e 29 (35,8%) como pardas.

Quebra de paradigmas

Vinculado ao Departamento de Ciências da Saúde (campus de São Mateus), Murilo Costa é um dos docentes que compõem o projeto e avalia que a representatividade nas fontes jornalísticas possui impacto direto na comunicação científica com a população. “Considerando que aproximadamente 55,5% da população brasileira se autodeclara negra, é importante que essas pessoas possam ver comunicadores com os quais se sintam representadas, especialmente em temas da área da saúde”, destaca o professor, que pesquisa infectologia, medicina tropical e infecções sexualmente transmissíveis.

Segundo Costa, o banco auxilia no rompimento de estereótipos históricos sobre quem produz ciência no Brasil: “O Banco de Fontes Negras ajuda a quebrar o paradigma de que a ciência é feita somente por um tipo de perfil. Muitas pessoas passam a se sensibilizar mais com temas de saúde quando a informação é transmitida por seus pares, que historicamente foram desacreditados como produtores de conhecimento”.

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Foto de Marília Santana em frente à placa da Diretoria de Infraestrutura
Marília Santana, arquiteta, urbanista e mestranda em Gestão Pública

Para a arquiteta, urbanista e estudante do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública (PPGGP/Ufes) Marília Santana, o debate racial está diretamente ligado à própria organização dos espaços urbanos. “Se a política é a organização social em um espaço, a arquitetura é sempre política porque a forma como projetamos cidades, universidades ou casas pode integrar ou excluir grupos sociais. Se os projetos partem sempre da mesma visão dominante, a chance de construirmos espaços realmente inclusivos diminui”, afirma ela, que estuda temas relacionados a projetos arquitetônicos, participação social e obras públicas.

Santana também é servidora da Diretoria de Infraestrutura (DI/Ufes) e acredita que a universidade pública possui papel fundamental na construção de ambientes mais inclusivos. Segundo ela, a iniciativa cumpre justamente essa função simbólica e prática: “O banco chama atenção para quais vozes reverberam e quais ainda precisam de espaço para reverberar nas áreas que constroem a sociedade”.

Novos cadastros

A partir de agora, o cadastro permanecerá aberto de forma contínua, permitindo que mais servidoras, servidores e estudantes de pós-graduação negras e negros vinculados à Ufes possam aderir à iniciativa, ampliando progressivamente a rede de especialistas disponíveis para a comunicação institucional da Universidade. O cadastramento deve ser realizado com o e-mail institucional (@ufes.br ou @edu.ufes.br), por meio do mesmo link de acesso à plataforma.

Fotos: Arquivo pessoal

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