Oitenta e uma pesquisadoras e pesquisadores negros da Ufes já integram o Banco de Fontes Negras, iniciativa institucional que busca ampliar e diversificar a presença desses especialistas na mídia, fortalecer a interlocução entre Universidade, imprensa e sociedade, e ampliar a representatividade de profissionais pretos e pardos na circulação pública do conhecimento científico no Brasil. A plataforma está disponível para consulta pública, por meio deste link, e pode ser acessada por jornalistas, estudantes e demais pessoas interessadas.
O Banco de Fontes Negras é um projeto desenvolvido pela Secretaria de Comunicação (Secom/Ufes), com apoio da Superintendência de Tecnologia da Informação (STI/Ufes). O lançamento ocorre neste 13 de maio, conectando a ação a uma data historicamente associada à assinatura da Lei Áurea, em 1888, atualmente ressignificada como momento de reflexão sobre os limites da abolição, marcada pelo fim legal da escravidão sem a plena inclusão social da população negra.
A pluralidade científica é um dos destaques do levantamento: o banco abrange todas as áreas de conhecimento ofertadas pela Ufes, incluindo saúde, educação, engenharia, direito, tecnologia, agricultura, sociologia, comunicação e economia. A distribuição por centros de ensino evidencia maior presença de pesquisadoras e pesquisadores ligados ao Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN), com 22 registros de vínculo (27,2%), seguido pelo Centro de Ciências da Saúde (CCS), com 11 (13,6%), e pelo Centro de Educação (CE), com 9 (11,1%). Juntos, esses três centros concentram 51,9% de todo o banco.
A ferramenta inclui ainda especialistas que atuam na Superintendência de Educação a Distância (Sead/Ufes) e na Administração Superior, demonstrando que a produção intelectual negra está presente em diferentes níveis da estrutura acadêmica e administrativa da Universidade.
Como parte das pessoas cadastradas acumula mais de um vínculo institucional, as categorias não são excludentes. Assim, entre os participantes, 28 são docentes (34,6%), 12 são técnicas e técnicos-administrativos em educação - TAEs (14,8%) e 45 são estudantes de pós-graduação (55,6%), indicando um processo de renovação geracional da presença negra na academia.
Já no recorte de gênero, o banco reúne 42 homens (51,9%) e 39 mulheres (48,1%). Quanto à autodeclaração racial, 52 participantes (64,2%) se identificam como pessoas pretas e 29 (35,8%) como pardas.
Quebra de paradigmas
Vinculado ao Departamento de Ciências da Saúde (campus de São Mateus), Murilo Costa é um dos docentes que compõem o projeto e avalia que a representatividade nas fontes jornalísticas possui impacto direto na comunicação científica com a população. “Considerando que aproximadamente 55,5% da população brasileira se autodeclara negra, é importante que essas pessoas possam ver comunicadores com os quais se sintam representadas, especialmente em temas da área da saúde”, destaca o professor, que pesquisa infectologia, medicina tropical e infecções sexualmente transmissíveis.
Segundo Costa, o banco auxilia no rompimento de estereótipos históricos sobre quem produz ciência no Brasil: “O Banco de Fontes Negras ajuda a quebrar o paradigma de que a ciência é feita somente por um tipo de perfil. Muitas pessoas passam a se sensibilizar mais com temas de saúde quando a informação é transmitida por seus pares, que historicamente foram desacreditados como produtores de conhecimento”.
Para a arquiteta, urbanista e estudante do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública (PPGGP/Ufes) Marília Santana, o debate racial está diretamente ligado à própria organização dos espaços urbanos. “Se a política é a organização social em um espaço, a arquitetura é sempre política porque a forma como projetamos cidades, universidades ou casas pode integrar ou excluir grupos sociais. Se os projetos partem sempre da mesma visão dominante, a chance de construirmos espaços realmente inclusivos diminui”, afirma ela, que estuda temas relacionados a projetos arquitetônicos, participação social e obras públicas.
Santana também é servidora da Diretoria de Infraestrutura (DI/Ufes) e acredita que a universidade pública possui papel fundamental na construção de ambientes mais inclusivos. Segundo ela, a iniciativa cumpre justamente essa função simbólica e prática: “O banco chama atenção para quais vozes reverberam e quais ainda precisam de espaço para reverberar nas áreas que constroem a sociedade”.
Novos cadastros
A partir de agora, o cadastro permanecerá aberto de forma contínua, permitindo que mais servidoras, servidores e estudantes de pós-graduação negras e negros vinculados à Ufes possam aderir à iniciativa, ampliando progressivamente a rede de especialistas disponíveis para a comunicação institucional da Universidade. O cadastramento deve ser realizado com o e-mail institucional (@ufes.br ou @edu.ufes.br), por meio do mesmo link de acesso à plataforma.
Fotos: Arquivo pessoal
Universidade Federal do Espírito Santo