Todos os anos, o Outubro Rosa coloca a saúde da mama em evidência e reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer. Na Ufes, uma pesquisa desenvolvida no Programa de Extensão e Pesquisa em Genética e Biotecnologia (PEPeG) amplia esse olhar ao investigar como microplásticos e nanoplásticos (contaminantes presentes no ambiente) podem interferir nas células mamárias.
Essas partículas, que podem chegar ao organismo pela ingestão, inalação e contato com produtos e materiais, já foram identificadas em amostras humanas, inclusive no tecido mamário e no leite materno. A presença delas no corpo levou pesquisadores a uma nova questão: entender como as células reagem quando são expostas a esses materiais.
É o que investiga o grupo coordenado pela professora do Departamento de Ciências Biológicas Eldamária Wolfgramm. No laboratório, os pesquisadores expõem diferentes tipos de células mamárias a micro e nanoplásticos e acompanham as respostas provocadas por esse contato. Segundo Wolfgramm, essas partículas não podem ser identificadas no tecido mamário pela mamografia e sua detecção exige métodos laboratoriais específicos, como a microespectroscopia Raman, que permite visualizar as partículas e identificar sua composição.
O interesse pelos possíveis efeitos dos microplásticos sobre a saúde da mama também está relacionado à composição desses materiais. Wolfgramm explica que alguns aditivos presentes nos plásticos podem atuar como desreguladores endócrinos, interferindo no funcionamento dos hormônios. De acordo com a professora, essa relação merece ser investigada porque o câncer de mama é uma doença multifatorial, influenciada por fatores hormonais, genéticos, comportamentais e ambientais.
Para entender essas possíveis interferências, os experimentos comparam células mamárias não tumorais e células de câncer de mama para verificar se elas respondem de maneira diferente à exposição. O grupo analisa fatores como sobrevivência e multiplicação celular, estresse oxidativo, inflamação e possíveis alterações no material genético.
Resultados
Entre os trabalhos desenvolvidos nessa linha, está a dissertação de Gabriela Pinheiro, intitulada Avaliação da citotoxicidade de microplásticos em linhagens celulares mamárias e do potencial do resveratrol na mitigação de danos, defendida em março deste ano no Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Ufes. O estudo avaliou microplásticos de diferentes tamanhos em células mamárias tumorais e não tumorais, analisando a viabilidade, a proliferação e a apoptose (processo de morte celular programada).
Os resultados mostraram que os efeitos dos microplásticos variaram conforme o tipo de célula, o tamanho das partículas e a concentração utilizada. Nas células não tumorais, houve aumento da atividade metabólica e da proliferação e redução dos marcadores de apoptose. Nas duas linhagens tumorais, as respostas foram diferentes entre si. Em conjunto, os resultados indicaram que, nas condições avaliadas em laboratório, os microplásticos interferiram no equilíbrio entre metabolismo, proliferação e morte celular.
Limites
Wolfgramm ressalta que esses resultados não permitem concluir que os microplásticos causem câncer de mama. Segundo a professora, as evidências disponíveis ainda são predominantemente experimentais, obtidas em estudos com células e modelos animais, que não reproduzem todas as condições da exposição humana.
Em uma revisão publicada na revista científica Food and Chemical Toxicology, o grupo também reuniu estudos sobre possíveis efeitos de micro e nanoplásticos na biologia da mama, incluindo mecanismos como estresse oxidativo, alterações mitocondriais, inflamação e instabilidade genômica.
Para Wolfgramm, ampliar o conhecimento sobre os fatores ambientais associados à saúde da mama pode, no futuro, contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção. A pesquisadora considera que, à medida que a ciência avance na compreensão dessas exposições, esse conhecimento também poderá subsidiar políticas públicas voltadas à redução de riscos ambientais.
Fotos: PEPeG/Ufes
Universidade Federal do Espírito Santo