“A formação recolhe o passado, interroga o presente e abre o futuro”, afirma Marilena Chauí

Em comemoração aos 67 anos da Ufes, celebrados nesta quarta-feira, 5, a professora, filósofa e escritora Marilena Chauí ministrou uma conferência sobre o tema Importância da universidade pública brasileira na atualidade. O evento, realizado às 9 horas, teve transmissão ao vivo e pode ser assistido no canal Ufes Oficial no YouTube.

Ao abrir a conferência, o reitor Paulo Vargas falou sobre a trajetória de 67 anos da Ufes, destacando que a instituição oferece, atualmente, 103 cursos de graduação, 62 de pós-graduação e beneficia milhares de capixabas com 830 programas de extensão. Além disso, a Universidade desenvolve cerca de oito mil projetos de pesquisa, dos quais mais de 600 são relacionados com a covid-19.

Vargas elencou, ainda, outros aspectos da Ufes, como o fato de manter o maior sistema de bibliotecas do Espírito Santo; o único hospital federal do estado, vinculado 100% ao Sistema Único de Saúde (SUS) e referência em atendimento de média e alta complexidade; e parcerias com 170 instituições de ensino e pesquisa de todos os continentes, consolidando as ações de mobilidade internacional. “Em 67 anos de história, a nossa Universidade se transformou, evoluiu e se expandiu com seu perfil multicampi. Todos os indicadores evidenciam o constante crescimento da Ufes nas áreas acadêmica e administrativa. O percurso da Ufes nos posiciona na defesa da democracia, da ciência e da educação superior pública e qualidade. Trabalhamos para e com as pessoas”, ressaltou.

Em relação à covid-19, o reitor afirmou que, em meio aos danos irreversíveis causados pela pandemia, as universidades federais sofrem com a sanção presidencial do orçamento para 2021, que apresenta queda superior a 18% para as instituições e redução de 29% para a área de ciência e tecnologia: “A Ufes tem enfrentado essas condições desfavoráveis com perseverança, planejamento e com a compreensão de que precisa se manter produtiva. Nos tempos atuais, devemos ter plena consciência sobre os riscos iminentes à democracia para que não tenhamos danosas repetições históricas”.

Democracia e universidade

As dificuldades da democracia no Brasil e como isso incide sobre a vida acadêmica e sobre o trabalho na universidade pública foi o principal ponto abordado na palestra de Marilena Chauí. Na visão da filósofa, o neoliberalismo considera a educação como um investimento para que crianças e jovens aprendam a desempenhar comportamentos competitivos.

“O neoliberalismo brasileiro é tosco e grosseiro. É a expressão da violência da nossa sociedade e desemboca na mentira política. A distinção entre o verdadeiro e o falso é a marca essencial do pensamento e por isso nós podemos dizer que a crueldade antidemocrática dos governantes se manifesta como ódio ao pensamento, mais do que um simples negacionismo. Esse ódio é o que vem exprimir no tratamento dado ao direito à educação em geral e às universidades em particular. O ódio ao pensamento desemboca naquilo que o reitor Paulo acabou de nos dizer da situação das universidades públicas”, disse.

Marilena Chauí considerou a docência como um trabalho de formação, em detrimento de uma transmissão rápida de conhecimentos adequados à ideia de eficácia, sucesso e competição. Para ela, formação recolhe o passado, interroga o presente e abre o futuro. “Se isso é formação, é possível compreender por que o ódio ao pensamento sob a forma de crueldade e cinismo se voltou contra a universidade pública. É para destruí-la não apenas enquanto universidade pública, mas para destruí-la enquanto instituição social e histórica. Referem-se a nós com ação de ódio, como algo que tem que ser eliminado enquanto universidade pública, na qual até o filho do porteiro entra”, enfatizou.

Para a filósofa, as ideias de liberdade e igualdade como direito civil vão além da sua regulamentação jurídica formal, significando que só há cidadãos se os indivíduos forem sujeitos de direitos. O direito, segundo Marilena Chauí, difere de necessidade ou privilégio: “Uma necessidade ou um privilégio é algo particular e específico, dependendo do grupo ou classe social. O direito, ao contrário, é geral e universal. No caso das minorias, a universalidade dos seus direitos está no reconhecimento universal de que são direitos. Onde tais direitos não existam nem estejam garantidos, temos direito de lutar por eles e exigi-los”.

Desigualdades

Na concepção de Marilena Chauí, uma sociedade pode ser entendida como democrática quando, além de eleições, partidos políticos, divisão dos três poderes da república e respeito à vontade de maiorias e minorias, ela institui direitos. Assim, para ela, a sociedade brasileira não é apenas antidemocrática: “Ela é estruturalmente autoritária e violenta, conservando as marcas da sociedade colonial escravista, fortemente hierarquizada em todos os aspectos. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação entre um superior que manda e um inferior que obedece. O outro jamais é reconhecido como um sujeito de direitos”.

A filósofa explicou que, no Brasil, percebe-se uma naturalização das desigualdades econômicas e sociais, assim como das diferenças étnicas, religiosas ou de gênero, criando formas visíveis e invisíveis de violências, como machismo, racismo, misoginia e homofobia: “Em nossa sociedade, as leis são armas para preservar privilégios e não para conferir direitos. Para os grandes, a lei é privilégio. Para as camadas populares, repressão”.

A polarização socioeconômica entre carência e privilégio, de acordo com Marilena Chauí, mostra com clareza o que tem acontecido durante a pandemia de covid-19, que “expôs, como uma ferida aberta, a exclusão”. Ela destacou que a violência estrutural é agravada pelo neoliberalismo, definindo-o não só como um enxugamento racional do Estado, mas como a decisão de desviar fundos públicos exclusivamente para os interesses do capital, retirando-os de serviços e interesses sociais, como alimentação, saúde e educação.

Segundo ela, se a democracia é a criação de direitos, o neoliberalismo é o que há de mais antidemocrático, uma vez que é a destruição da ideia de direitos: “Os direitos sociais no neoliberalismo são privatizados. Eles formam serviços que são mercadorias, excluindo aqueles que não têm condições socioeconômicas para adquiri-los”.

A conferência de Marilena Chauí em homenagem aos 67 anos da Ufes já registrou mais de 1.300 visualizações.

 

Texto: Adriana Damasceno
Edição: Thereza Marinho

 

 

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