O professor do Departamento de Letras Vitor Cei estreia na literatura com o livro Metafísica de Carrasco, que será lançado neste sábado, 16, a partir das 15h30, na Catraia Livros e Leitura (Rua Duque de Caxias, 121, Centro de Vitória). Na ocasião, o professor participará de um bate-papo com Marcio Vaccari, ilustrador do romance, que lançará a obra O Peste, composta por uma centena de cybercharges voltadas à crítica política e social. O lançamento conjunto contará ainda com apresentação musical de Gaspar Paz, professor do Centro de Artes e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Ufes (PPGL), que assina o posfácio do livro de Vitor Cei.
Na trama de Metafísica de Carrasco, um ex-presidente que está preso se confessa a um padre da pastoral carcerária enquanto revisita episódios da história política recente do Brasil por meio de citações, paródias e reelaborações textuais. Segundo a proposta formal do romance, construída a partir da literatura por apropriação, a narrativa é composta como um tecido de citações, articulando referências filosóficas, literárias, estatísticas e históricas.
Vitor Cei, que antes da pandemia de covid-19 não pensava em escrever ficção, conta que a face absurda da realidade começou a impulsioná-lo na direção de um novo projeto. “Como aconteceram tantas coisas absurdas e nonsense, que ainda ocorrem — sendo a mais recente a dos fanáticos bebendo detergente contaminado com bactéria —, eu também estava planejando e rascunhando um novo projeto de pesquisa sobre o tema do fantástico e do realismo mágico no noticiário político. Então veio a pandemia e, em vez de escrever mais crítica e teoria, comecei a usar o noticiário como fonte para escrever ficção”, lembra.
A partir daí, em abril de 2022, ele publicou a plaquete Impeachment: o julgamento do presidente Bolsonaro no Senado Federal, no formato epub pela E-galáxia e encadernada artesanalmente pela editora Butecanis. Motivado pela atuação do ex-presidente na pandemia, o professor planejou uma nova plaquete com um texto curto sobre o julgamento de Bolsonaro. “Mas o texto foi crescendo”, diz, “e se tornou um romance sobre a ascensão e a queda do circo de horrores que se consolidou como plataforma político-religiosa, reacionária nos costumes, neoliberal na economia e de extrema direita na orientação política.”
Tecido de citações
Metafísica de Carrasco, explica Vitor Cei, insere-se na tendência contemporânea da escrita “não criativa”, ou seja, que se aproveita de textos já existentes para recortá-los de seu contexto original e colá-los junto a outras citações, alterando seu sentido. Diálogos e discursos de personagens, por exemplo, foram construídos a partir de citações de políticos atuantes na época, do governo e da oposição. Já a narração bebeu nas fontes tradicionais da literatura e da filosofia, da antiguidade à contemporaneidade.
“A força estética está nessa colagem que arranca o discurso de ódio do contexto original e o reinsere em um novo suporte para renovar o mundo velho, tal qual o colecionador que, segundo Walter Benjamin, é o trapeiro ou sucateiro que recolhe os fragmentos e ruínas da história”, argumenta Cei.
A proposta formal questiona o lugar do autor ou autora e da invenção na cultura contemporânea, segundo ele. “Assim como o DJ enxerga a música como um dado a ser manipulado e alterado, escritores contemporâneos imersos na cultura digital veem textos como peças de arquivo que podem ser selecionadas e rearranjadas em gestos de seleção e edição”, afirma.
Editados pela Catraia Livros e Leitura, os livros serão vendidos por R$ 70 (Metafísica de Carrasco) e R$ 80 (O Peste).
Universidade Federal do Espírito Santo